Apontamentos sobre o futuro do monaquismo

Obviamente o futuro do monaquismo depende, em primeiro lugar, de que os monges (e também as monjas) sejam antes de tudo monges e nada mais do que isso. Não é possível falar do futuro de uma instituição que queira se autodestruir. Supõem-se que os monges seguirão mantendo sua identidade e sua vocação de homens que consciente e deliberadamente adotaram um modo de viver à margem da sociedade, uma forma de ser que implicar uma crítica a esta sociedade, buscando certa distância dela e aspirando a libertação deste domínio, ao mesmo tempo, permanecendo abertos às necessidades e dispostos ao diálogo.

A razão de tudo isto é claramente teológica, inclusive “religiosa” (não entramos na discussão sobre a ambiguidade deste termo). Em outras palavras, o monge é uma pessoa que segundo a linguagem tradicional “busca a Deus” ou busca por “metanoia” e mudança interior para aprofundar sua consciência e conhecimento, de forma que “experimente” algo da essência do ser e do poder salvador do Espírito, e testemunha de algum modo. Em termo cristãos, isso significa uma vida de “morte e ressurreição em Cristo”, uma “vida no Espírito”, no sentido mais pleno da palavra, uma vida de liberdade carismática, humildade, paz, entrega, transformação e alegria, uma vida de “amor”, como diz o Evangelho e o Reino de Deus.

Naturalmente, a vocação monástica não quer se definir como a única vocação cristã e menos ainda como, necessariamente o melhor modo de ser cristão. Se um homem do espaço, um astronauta, suporta algumas provas e adquire destreza, isso não implica que seja superior; mas ocorrer que aquele trabalho convém, ou melhor, é “sua vocação”.

Supondo que os monges fazem outra coisa como dirigir uma empresa, com sua respectiva engrenagem de oração pública, que não fomenta certa mística agnóstica ou contemplativa e que necessariamente tem uma estrutura institucional e uma identidade comunitária. Então qual é seu lugar no mundo moderno? Há lugar? Devem estar preocupados com sua importância ou podem confiar que a vida monástica vivida seriamente se justifica em si mesma?

Os seguintes apontamentos são sugestão que, em primeiro lugar, interessam a tomada de consciência monástica. A identidade do monge não é algo que se consegue vivendo em um puro vazio de solidão, diante do rosto de Deus, mas que deve ser consequência de sua relação com a sociedade, algumas vezes negativamente (sua “renúncia ao mundo”) e positivamente: seu amor pelo mundo, que não é apenas rezar, mas dialogar de alguma forma com ele.

Ainda que alguns monges sejam firmes em sua solidão, ascetismo e oração, tendo o mínimo de contato com o mundo, devemos reconhecer que a forma como isso foi interpretado em um passado recente, foi desastrosa: o resultado foi apenas uma espécie de narcisismo organizado, sem futuro. Portanto, não vale a pena discutir isso aqui.

Parafraseando São Bento: Quando menos se fale destes monges, melhor.

O mosteiro monumental da Idade Média, com seus personagens envolvidos em véus e capuzes, deslizando e cantando suas orações em um idioma desconhecido, não estavam verdadeiramente “fora do mundo”, mas formavam parte de certa estrutura social. Os conventos conservadores de hoje continuam se identificando com essa espécie de pessoas, o que implica certa ideologia e atitude que possuem consequências sociais decisivas. Para dizer com franqueza, estes claustros estão vinculados com benfeitores ricos e muito conservadores e com visão reacionária e arcaica da realidade social. Sua “negação do mundo” e até sua “contemplação” são muito influenciadas, na realidade, pelo antecedente econômico e social. Esse é o caso de muitas casas religiosas na Espanha, Itália ou na América Latina, mas ocorre também nos Estados Unidos. Nos tempos de violência revolucionária, tais comunidades se convertem em alvo principal da destruição.

Teologicamente o mérito de seu sacrifício é bastante duvidoso, ainda que individualmente, as pessoas que se encontram de boa fé naquela situação são “vítimas agradecidas” sem dúvida nenhuma. As instituições arcaicas merecem o que recebem de cima.

Isso nos ajuda a reconhecer um fato que a ideologia monástica tem tendência a ignorar várias vezes. Os monges, por mais que queiram se afastar do mundo, sempre inevitavelmente se incorporam a certa estrutura social, quando tornam-se instituições, e identificam com outros grupos naquela estrutura. Para o bem ou para o mal, terão que navegar em rios de mudança social com outros grupos com que se identificam em alguns aspectos.

O problema do futuro monástico pode ser contemplado por este ponto de vista: em uma sociedade em estado de mudança, onde outros grupos estão orientados para o futuro mais visível, o monge que se orienta para o futuro inconscientemente vai se alinhando com isso e identificando-se com eles. Por outro lado, o monge que não está orientado para futuro, ainda que não admita, se identifica com o poder estabelecido, nem que seja de forma inconsciente, e também com os representantes do status quo. Então, quais são as opções?

Alguém pode se identificar com:

1) Estrutura do Poder estabelecido e aqueles que aceitam-no sem críticas, ou seja, a maioria da população do USA. Este setor humano se orienta para o futuro no sentido em que planeja um futuro quem seu próprio poder permanece inalterado.

Obviamente considera o grande desenvolvimento tecnológico, mas a estrutura fundamental permanece a mesma. Portanto, os grandes problemas que o sistema não pode resolver permanecem iguais, apesar dos avanços tecnológicos. É um ponto de vista especialmente conservador, ainda que pense em si mesmo como progressista.

2) A classe inferior: os pobres de todas as partes, que se encontram prisioneiros no seio da presente ordem das coisas. Eles devem permanecer onde estão e se movem-se, seu movimento é para baixo, não para acima. Sua situação não melhora, ao contrário, sempre piora. Tornam-se mais numerosos e mais conscientes do aperto em que estão e tomam consciência de constituir a maioria da população mundial. São a matéria-prima da revolução.

3) O intelectual sem compromisso e marginal que não tem interesse com a sociedade estabelecida, mas se move livremente nela. De certa forma, é um ser privilegiado e respeitado; pode trabalhar se quiser e usar os recursos da ordem que pertence para pagar suas viagens e investigações. Trata-se de universitários, acadêmicos, estudantes, hippies, artistas, poetas, escritores… A comunidade intelectual não se identifica com a ordem estabelecida, mas é óbvio, que muitos destes, identificam-se com a atual ordem das coisas, ao viverem do dinheiro do governo, ao trabalharem pelo conjunto da indústria militar, a CIA ou outras instituições parecidas. Nesse caso, pertencem ao primeiro grupo.

De fato, os católicos (hierarquia, clero, massa da classe média católica) aceitam a ordem conservadora e se identificam com ela, os monges acabam por imitá-los. Não conhecem algo melhor ou não sabem como partir para uma nova etapa: a ideologia e a visão do mundo que tem é a única que podem brindar a essa sociedade. Quando se trata de estar “abertos ao mundo” e de serem progressistas, tudo que fazem é se abrir a uma influência mais intensa da ideologia do sistema atual. Sem crítica ao ponto de vista da ordem estabelecida, admitem se difundir pelos meios de comunicação social. Sua posição continua sendo conservadora. Grande parte do aparente progressismo dos monges e demais católicos parece ser completamente ilusório porque não é mais do que a aceitação total e submissa aos lemas familiares da sociedade, suas atitudes clássicas, seus clichês. Seu aspecto “progressista” é somente cega admiração pelas vitórias da tecnologia.

Ao perceber isso, muitas vezes sem consciência, há monges que buscam a identificação com o grupo 2, ou seja, os subdesenvolvidos. Assim sentem-se empurrados ao monaquismo urbano de pequenos grupos. Certo número pequeno de monges vai viver (como fazem os religiosos ativos) em guetos, trabalham com seus vizinhos (passando o trabalho a outro), fazendo-se verdadeiros irmãos e amigos das pessoas que os rodeiam. Conservam sua vida de oração e meditação no meio da classe baixa. Certamente representa uma solução mais honesta e realista que a anterior (que no fundo não é solução, mas somente aceitação da situação real e discutível em diversos pontos de vista). Mas o perigo dos monges submersos nos meios urbanos está no fato, de que se não forem conscientes, podem se transformar em simples missionários e apologetas da estrutura do poder estabelecido.

A minha própria experiência de vida e vocação mostra-me que, ao menos para alguns de nós (monges como indivíduos ou comunidades) é importante e muito natural se identificar com os intelectuais que não possuem interesses ligados a ordem estabelecida e adotam uma postura crítica diante disso. Na realidade, esta classe social ocupou o lugar do monge, frade ou clérigo da Idade Média. Somente o intelectual está livre para se mover no mundo como deseja. Tem ideias pessoais: pode ser original, criador, iconoclasta e independente, não está preso a um sistema econômico centrada na avareza. Percebe as contradições internas, as injustiças, os problemas sem solução do atual sistema e orienta sua consciência sem medo de ser desaprovado. Tem uma visão global. Não se apega às perspectivas fechadas, limitadas e deformadas do “termo médio”, que vem com o corpo de ideias (ou pseudoideias) empurradas pelo grupo 1.

Além do mais, esta classe ou grupo conhece os problemas das classes inferiores, aberto a um diálogo com elas e capaz de ajudar-lhes de determinada forma. Na verdade, os intelectuais não pensam ser profetas ou ativistas revolucionários.

Neste grupo de intelectuais sem compromisso com a sociedade, inclui-se o importante grupo dos insatisfeitos e críticos (hippies…) que se interessam pelos temas espirituais e religiosos e estão realmente empenhados em encontrar-se espiritualmente; ao mesmo tempo, recusam uma sociedade que consideram sufocante e conformista. Sem dúvida, podem se equivocar em suas reações e acabar em becos (por exemplo, a droga); mas é correto admitir que não apenas estão próximo, mas que também se interessam por nós. Costumam chegar a nossos mosteiros com curiosidade grande e vida e querem saber se temos algo que eles poderiam respeitar. Se encontram apenas um grupo de homens desinformados, arcaicos, “pios”, fechados e rígidos, identificam-nos com o mundo que lhes parece estúpido.

No futuro, especialmente para as futuras gerações, a vida monástica terá sua existência, enquanto os mosteiros estiveram abertos ao diálogo e intercâmbio de ideias com a comunidade intelectual, já mencionada no grupo 3. Para que o diálogo se torne frutuoso, a comunidade intelectual deve encontrar em nossos mosteiros a realidade monástica (pessoas profundas e sensíveis, que adquiriram os valores do monaquismo pela experiência) e abertura à realidade social do século XX.

Podemos concluir um destes objetivos dentro de nossas estruturas. Mas seria muito difícil realizar ambos de uma vez. As estruturas atuais têm que ser modificadas para se atingir os dois objetivos. A sobrevivência do monaquismo exige que ambos objetivos sejam alcançados.

Realidade monástica: isso significa verdadeira comunidade monástica, que compartilhe uma experiência viva de valores tradicionais, que sejam ao mesmo tempo plenamente válidos para nossa época. Isso é difícil e requer grande conhecimento da mensagem escatológica do Evangelho e seu testemunho. Também significa solidão, em medida e grau que podem variar de um indivíduo ou outro. Não estou defendendo uma falsa “mística do eremita”, mas temos que estar sozinhos para nos encontrarmos. Isso pode se chamar isolamento se for desejável; mas temos que nos dedicar a pensar e trabalhar; o que exige certo silêncio e afastamento, precisamos de tempo para meditar e criar. Também a própria comunidade deve respeitar certo silêncio e evitar se tornar um conjunto falante e incontrolado. O monaquismo implica certa “distância”, pela qual alguns podem “se aproximar”, evitando a mera imersão em proximidade confusa, onde não há pessoas, mas somente uma massa de seres que fala e se move.

Abertura ou realidade social: não apenas quer dizer informação, mas também comunicação pessoal com os demais que formam o mesmo espírito, os “outros monges” com os quais podemos trocar ideias e projetos frutuosamente, mesmo se foram incréus. Isso implica habilidade de aprender a discutir com homens de outras tradições religiosas, com intelectuais, artistas, escritores, ou seja, com todos que representam o mais valioso do espírito de nossa época moderna, porque são eles que, se alguma forma, vivem a vocação “profética” e tem consciência das sementes vivas do futuro no presente e também dos poderes mortais que podem esterilizar as sementes e levar a raça humana a um desastre.

Estando na cidade ou no deserto, os monges devem realizar duas coisas: oração e experiência monástica, junto com abertura à realidade contemporânea, personificada nos que tem espírito vivo e orientado para perspectivas autênticas. Na verdade, o monge não deve ter ar de superioridade por sentir-se “em dia” e livre.

A nova mediocridade

Infelizmente o monaquismo sempre enfermo pela mediocridade.

Frequentemente representa um modo de viver institucionalizado, seguro, amparado, onde se pode esquecer da realidade por diversas formas. Pode-se respeitar as regras, purificar as intenções e viver uma vida de indiferença, desamor e mediocridade espiritual. Sabemos disso. Mas quando as regras desaparecem e nos deixam “criar” um novo monaquismo para nós mesmos, podemos também gastar nossa vida em passatempos inúteis e superficiais, desprovidos de significado e direção e buscar saída em formas adolescentes e espúrias de espontaneidade, pensando que isso é “vida” e “expressão de si mesmo”. Obviamente, podemos estar implicados em projetos acadêmicos mais respeitáveis, mas também fúteis; às ambições mesquinhas de eruditos, editores e autores de comentários e notas aos comentários e notas de outros; ou infelizmente podemos gastar o tempo em conversas sem fim com um grupo amável e agradável de intelectuais (grupo 3), acreditando que estamos melhorando o mundo e promovendo a vocação monástica. Mas sempre, em tudo que fazemos, corremos o risco de fracassar. O mais importante é ter uma ideia clara de nossas metas e dos obstáculos que enfrentaremos, ser fiel às contradições, muitas vezes dolorosas, de nosso carisma.

Conclusão

Associar a verdadeira profundidade monástica e sua experiência com o diálogo com as forças vivas e intelectuais e culturais de nosso tempo requer um carisma especial. O carisma é um dom, mas deve-se lutar para merecer e guardá-lo. A coisa importante e básica é o chamado monástico à oração e renúncia, à transformação interior, ao que se costuma chamar de “vida contemplativa”. Cada um de nós deve por isso em primeiro lugar, de qualquer maneira, sem adotar modos fúteis, irreais ou desonestos para conseguir. Não se pode dar o que não se tem. Se nossos mosteiros são verdadeiros focos de vida e experiência monásticas, os mais ativos do mundo exterior virão espontaneamente compartilhar de nosso silêncio e discutir conosco sobre descobertas interiores. Acredito que este intercâmbio e participação terão importância decisiva nos mosteiros. Mas tudo depende da solidão e oração.

 

Louis Merton1

*Tradução e adaptação do texto publicado em espanhol na revista Cuadernos Monásticos de 1969, n. 11, p. 107-121.

 Louis Merton era o nome religioso de Thomas Merton. Nascido na França, foi um escritor, teólogo e místico do século XX. Monge trapista na Abadia de Gethsemani, em Kentucky. Faleceu em Bangkok, na Tailândia com 53 anos.