O conceito de oração monástica

Uma monja da Abadia Nossa Senhora, Mãe da Igreja

 

Ideias básicas à luz da Escritura, Tradição e Teologia: relação entre oração privada e oração comunitária, valor eclesial

        O tema geral: “A oração monástica hoje” convida-nos a ter como ponto de partida o monge atual para apresentar as ideias básicas para um “conceito de oração monástica”. A oração monástica hoje é a oração de um monge de hoje, portanto de alguém a quem nada humano lhe é diferente (Gaudium et Spes 46), que vive as preocupações e temas centrais da vida atual, mas a quem também é atual o mandato evangélico que impulsionou tantos monges no passado: “é preciso orar sempre” (Lc 18,1).

        O monge de hoje, cuja vida é principalmente dedicada à oração, pode olhar a pessoa, sua dignidade, liberdade e transcendência (os grandes temas de nosso mundo) sem medo? (cf. Paulo VI, Discurso aos abades de 18 de junho de 1966). Veremos que esta mesma oração nos dará os elementos para responder. Na verdade, se a oração é um diálogo com Deus, primeiro deve se fazer a pergunta: como o homem pode dialogar com Deus? Isso só é possível porque Deus fez o homem como um ser pessoal, fê-lo a sua imagem (cf. Ecclesiam Suam III; Gn 1,26). Como imagem, o homem está ansiando por Deus, voltado para Ele e somente pode ser homem quando está unido com Ele (Gaudium et Spes 13-17).

 

I. Oração, encontro pessoal com Deus

        A revelação nos assegura que, a partir do ser natural da pessoa, o homem não pode se orientar além do Deus pessoal (Gaudim et Spes 19), o qual se desvela a Si mesmo e eleva o Homem pela graça e o faz entrar na intimidade das relações intradivinas.

        O personalismo descreve a pessoa como um ser na relação recíproca com um tu. Esta relação nasce de uma chamada e uma resposta. É uma relação de amor, dinâmica e criadora. A relação pessoal tende a crescer no diálogo, presente e serviço. A pessoa é feita para o diálogo e encontra e se descobre nele a ponto de não ser plenamente ela mesmo, se não estiver diante de uma pessoa e relacionando-se com ela. É o ser que, expressando-se a si mesmo, se realiza como pessoa. Isto alcança seu cume, quando o homem não diz algo qualquer, mas quando se manifesta a si mesmo, quando se compromete como pessoa em sua palavra, quando se faz presente e se atualiza nela.

        O homem é abertura e chamada ao outro, seja Deus ou sejam os homens. Deus se manifesta como pessoa e a fé o reconhece como um Tu vivente que sai ao encontro do homem. Quando Deus manifesta que se dirige aos homens e quer fazer aliança com eles, este acontecimento se realiza em uma Palavra cuja substância somente pode ser captada pela fé (Gn 2,1; Hb 7,2).

        Então, o crente encontra Aquele que se manifesta na Palavra. A relação que se institui entre Deus e a pessoa criada se forma pela palavra. É um diálogo. A pessoa se realiza na palavra dirigida a Deus e Deus interpela aos homens e os introduz na vida trinitária, por meio da Palavra, portadora de graça, fazendo-se partícipe do diálogo eterno que ocorre entre o Pai e o Filho no Espírito Santo.

        O eu divino somente pode ser conhecido em virtude do dom prévio de sua graça e o homem somente pode responder ao eu de Deus, quando apoiado nesta doação divina. Por ela, Deus encontra-o a todo instante, chama-o e atua sobre o homem na paz e o gozo do Espírito Santo.

        A oração é a acolhida da vontade do Amor de Deus e resposta amante, formulada, de qualquer forma, a este amor. Isto não pode ser acessível, exceto a quem tem experiência da oração.

Quanto mais radical o abandono na oração (o que supõe um coração purificado), mais o encontro com Deus terá um caráter existencial. Pelos atos de fé, esperança e caridade (adesão de fé à presença de Deus, tensão da esperança à salvação e dom de si ao amor) ocorre o misterioso diálogo.

        Na oração, o cristão se compromete segundo a dimensão mais profunda de seu ser, que está ordenada para Deus e pela graça, aberta à salvação.

 

II. Bases bíblicas

        Há coincidência entre a história da salvação e a história da oração. Toda a história da salvação é a história desta relação de amor que narra exatamente este longo e variado diálogo que nasce de Deus e tece uma admirável e múltipla conversão com o homem, diz Paulo VI na encíclica Ecclesiam Suam. Deus chama e promete, o homem responde e obedece (Gn 12,1.15; Mt 16,24). A iniciativa parte de Deus e é uma corrente imensa que nos precede, envolve-nos e com nossa resposta livre, pega a Deus. É o amor de Deus que como fogo devorador (Ex 24,17; Dt 4,24; Is 33,14) nos interpela ao longo dos séculos, é nos entregue incondicionalmente e desperta no homem uma aceitação livre e amorosa ainda que fraca, limitada e inconstante (Jo 1,6; 18,17).

        A Palavra de Deus pela qual chamou todos os seres e eles responderam existindo (Gn 1; Pv 8,22; Sb 8), chamará depois a um grupo de homens e mediante seu preceitos e aliança, fá-los-á povo de Deus. Não é mais o caos informe que submete, mas são vontades livres e um povo de dura cerviz (Gn 12,4; 22,1-3; Ex 15,24; 32,9).

        Este povo é o sujeito da oração em todo o tempo anterior ao exílio; é a oração da assembleia litúrgica, a oração do culto (Ex 12,27; Lc 9,24; 23,21; 23,3). O indivíduo que ora, faz como membro do povo. A oração pessoal de Abraão (Gn 18,23-33). Moisés (Ex 8,8; 9,2a; 32,11; Dt 9,18.25-29), Salomão (1Rs 8:30-51) e Elias (1Rs 19,14; 17,1; Tg 5,17) oram pelo povo.

        A consciência elementar de quem ora é fé na presença de YHWH no meio de seu povo (Ex 33,16) e como a iniciativa é própria de Deus, seu ato fundamental é escutar a Palavra (Dt 9,1; 5,1; Os 4,1). Deus manifestas suas exigências: fidelidade à aliança e cumprimento de seus preceitos e o homem responde com obediência e adesão à sua vontade, na oração.

        Quando o homem não responde com fidelidade à Aliança, a palavra profética anuncia o desígnio de Deus: é a Palavra poderosa na boca do Profeta (Am 7,10; Jr 5,14; Os 6,5; Jr 23,25). O oráculo penetra como parte ativa nos acontecimentos e não é simples constatação do ocorrido. É palavra que chama, move para a conversão, interpela, denuncia, acusa, ameaça, encurrala o homem até que confesse (Sl 50; 1Sm 12,3; Am 6,8). Todo o tempo que Israel permanece firme na fé, sustentado pela presença de Deus no povo, a oração se mantém profundamente enraizada na vida de Israel.

        Mas o panorama muda com o fim da realeza. Ao desmoronar tudo que sustentava a vida religiosa, a fé javista entra em crise e com ela, a oração de Israel. Então, o destino pessoal passa para o primeiro plano. O judeu piedoso, em sua desgraça está só diante de Deus, já não encontra sustento na história do povo, nem em seus sacerdotes, sacrifícios e festas anuais. Não pode esperar a consolação que vem de Sião, porque o Templo está destruído (Sl 10; 12; 74; Jr 12,1). É a pedagogia de Deus que quer “conduzir Israel para uma relação religiosa mais pessoal, dar-lhe consciência mais clara da salvação espiritual, encaminhá-lo para uma piedade interior”. Ao questionar os valores considerados até agora como bençãos (longa vida, paz, fecundidade, abundância de bens), o judeu piedoso encontra o valor primordial: o da comunhão com Deus que intui duração além da morte, ainda que não sabe como se realizará (Sl 73). “Para mim, o ideal é estar junto com Deus”.

        Chegamos ao cume da oração no AT, expresso de maneira particularmente bela nos salmos, síntese da oração de Israel. No crisol do desterro se prepara o novo Israel como o resto que surgirá e “apoiará com firmeza somente em YHWH” (Is 10,20).

        Esta oração do período posterior ao desterro, amplia o horizonte, universaliza até proclamar a salvação para todos os povos (Is 66,18), mas ao mesmo tempo concentra-o em um único ponto, no único que pode levar seu cumprimento perfeito à oração de Israel: CRISTO. “Continuidade e cumprimento, mas ao mesmo tempo, superação e ruptura, caracterizam toda a mensagem de Jesus como também sua oração” (cf. Lc 3,21; 5,16; 6,12; 9,18.28; 10,21; 22,32; Mt 14,23-25; 14,19; 19,13.26.36-44; Mc 6,46; 7:34).

        Jesus é o novo templo, a liturgia viva, o sacrifício único, o louvor permanente, o único laço de amor-perfeito entre Deus e os homens. Cristo, palavra encarnada, revelador do Pai é toda a Palavra de Deus. “Deus determina uma única e definitiva vez em Cristo, tudo que deve dizer ao homem” (Hans Urs von Balthasar, Verbum Caro, p. 36), mas também é “o que escuta” (Jo 5,30) e o que dá a única resposta totalmente adequada em sua obediência ao Pai, o que possibilita nosso acesso a Ele, nossa oração. Não pode haver oração fora de Cristo. Não nos deu somente uma fórmula de oração (Mt 6), mas a possibilidade de fazê-la; em sua oração está o modelo da nossa. A Igreja, com Maria, continuará através dos séculos esta oração ininterrupta, este canto de espera. Nesta etapa da espera do Senhor que vem, nesta etapa da Igreja, situa a oração do monge.

 

III. Dimensões da Oração monástica

     a. Oração contínua

        A oração do monge se apresenta, na história do monaquismo, como uma atitude de atenção amorosa o mais perene possível. Não se trata de orar de tempo em tempo, mas que toda a vida do monge seja vida de oração. Essa atenção a Deus, esse estar diante de Deus, exige a renúncia a tudo que pode distrair ou separar de Deus e, ao mesmo tempo, a busca ou a prática daquilo que pode mantê-lo em sua presença e uni-lo ainda mais a Ele.

     b. Notas comuns de ambas as tradições

        Nos antigos monges, tantos os pais do deserto como os cenobitas encontramos essas características comuns:

  1. Extraordinário apreço pela oração.
  2. Considerá-la como relação vital com Deus.
  3. O exemplo e a exortação do Senhor os impulsiona a velar e orar ininterruptamente.

        É a clássica frase de Cassiano: “Todo o fim do monge e a perfeição do coração tendem a perseverar em uma oração contínua e ininterrupta”. A oração dos monges ocorre como ruminação fruitiva da Palavra de Deus, particularmente dos Salmos. Em todo momento e lugar, o monge “come” e “mastiga” a Palavra de Deus, de forma que esta transforme sua vida (cf. Vita Antonii 4,44).

        Nos primeiros séculos do monaquismo, não encontramos a divisão entre lectio, meditatio, oratio e contemplatio que futuramente os monges mais doutos farão. Não significam partes separadas. São um todo, uma unidade, como diferentes posturas da alma que está sempre buscando o Rosto de Deus. Tampouco encontramos uma diferenciação entre oração praticada comunitariamente e feita privadamente. O monge busca orar sempre, medita a Escritura, rumina os salmos de forma solitária, em sua cela, reúne-se com seus irmãos em determinadas horas. Há um ritmo de continuidade entre a oração solitária e a feita em comunidade e a passagem de uma para outra se faz sem ruptura, já que tanto o conteúdo como a forma de realizá-las, não são essencialmente distintas. O monge louva a Deus com toda sua vida, ela toda é Opus Dei (mais tarde São Bento aplicará esta expressão que em sua época significava a oração, em todas as formas).

     c. Evolução na história

        São Bento destaca o fundamental na evolução da oração comum: recebe toda a tradição oriental através de Cassiano, a influência do Mestre e também as liturgias basilicais, especialmente a ambrosiana. Harmonizando todos estes elementos cria uma forma bem estruturada de oração comum. Toda a vida do monge continua sendo uma busca a Deus e um esforço de oração (para São Bento, “o amor a Cristo” e “a obra de Deus” são as atividades que gozam de uma primazia “absoluta na vida do monge”). O Opus Dei marca os tempos principais para a oração contínua e é uma forma particular da única atividade espiritual que preenche toda a vida do monge. “É a atualização temporal (realizada em comum) da conversa íntima e incessante que o monge mantém com Deus durante o dia” (Adalbert de Vogüé)

        Nos séculos posteriores, o ofício toma um lugar cada vez mais preponderante na jornada monástica, tanto pelo que exige, como pela importância que lhe outorga. Toda a economia monástica estava organizada em função do louvor divino que absorve a maior parte do tempo. Em Cluny, por exemplo, a vida do monge é tão identificada com a liturgia que ela preenche praticamente o dia todo (preparação e execução).

Além do mais é necessário reconhecer a influência da existência dos mosteiros basilicais durante o monaquismo medieval. Neles, a celebração parece ser a única razão de existir e a única ocupação, quando, na verdade, é somente um aspecto, ainda que importante, do ideal beneditino.

        A oração monástica sofre a influência do mundo clerical e também suas consequências: o ofício se torna mais complicado e adornado e a perfeição material é mais destacada. Também se percebe uma espécia de ruptura material entre oração comunitária e oração pessoal, no sentido de que agora elas constituem momentos bem distintos. Na verdade, a oração solitária está sempre impregnada e colorida pelos mistérios de salvação que se celebram nos ofícios; neles se medita e depois a oração e contemplação do monge são como prolongação e irradiação do mistério vivido na liturgia. Ela é o caminho pelo qual o monge entra na Escritura e nos Padres e penetra nos grandes temas tradicionais, por isso a liturgia é o comentário normal da Escritura. Ou seja, através dos matizes e desvios que se viveram através dos séculos, a genuína espiritualidade beneditina que conjuga ambos os aspectos em uma única realidade: a vida de oração que é a definitiva busca constante de Deus. Sendo assim, no espírito de São Bento, o culto litúrgico e a oração silenciosa se condicionam, supõe e interpenetram.

     d. Traços da oração monástica

        Através da história, a oração monástica aparece como um fato que apresenta certas características constantes:

  1. Necessidade de orar sempre.
  2. Papel preponderante da Sagrada Escritura.
  3. Seu caráter cristológico.
  4. Necessidade da pureza de coração e ascese.
  5. Liberdade com relação aos métodos.
  6. Intenção contemplativa.
  7. Função “na Igreja”: sacerdotal, profética e real no triplo valor do serviço.
  8. Direção escatológica.

        Essas características estão baseadas teologicamente no caráter de toda oração cristã, já que a oração monástica não é algo distinto dela, mas pretende ser sua expressão mais profunda, dado que constitui algo essencial na vida do monge. Exatamente por isso se acentuam certos matizes que tomados em seu conjunto nos permitem falar de uma oração monástica.

        Se nos perguntamos porque aparece no cristão (monge) a necessidade de orar sempre, devemos responder que, além do preceito do Senhor, ela se deve à própria realidade do ser criado em Jesus Cristo, que todo cristão possui. No Cristo há dois aspectos principais: a relação com o Pai e sua missão no mundo. O monge encarna a relação total de Cristo com o Pai, o desejo de “agradar somente a Deus”. A oração monástica é como a atualização do ser monge, uma “forma de existir diante de Deus” ou como diz a Escritura “caminhar com Deus, andar em sua presença”. Esta é uma relação pessoal, uma abertura à sua Palavra. O monge, que concentra toda sua vida nessa relação, é o ouvinte por excelência da Palavra. Esta é a importância da Sagrada Escritura em sua vida. O monge escuta a Palavra para responder a Deus e unir-se a Ele. Rumina-a, é penetrado por ela, fazendo-a sua. A Palavra que é dirigida ao homem é portadora da graça e perdão, mas também é para juízo. À sua luz, o homem reconhece seu caráter de criatura pecadora que o separa do Deus santo e a necessidade de purificação e renúncia (ou ascese) que é um valor “que permite caracterizar a vida do monge, como um dinamismo de renúncia que conduz à experiência das realidades eternas” (cf. Paulo VI, 18 de outubro de 1966): “pelo progresso da vida monástica (conversatu) e na fé… participamos dos sofrimentos de Cristo e merecemos acompanhar-lhe em seu reino” (Regra de Bento Prólogo); e como se lê em outro lugar: “o monge chegará àquele perfeito amor, que o Espírito Santo se dignará manifestar ao trabalhador limpo dos vícios e pecados…” (Regra de Bento 7). Este é o caráter pascal da ascese monástica que está toda orientada à plenitude da oração cristã e vida em Cristo (cf. Venite Seorsum I). A capacidade que o homem recebe para se comunicar com Deus, a alcança por meio do Espírito que lhe dá um coração: puro, novo, que escuta e o faz “criatura nova”.

        Nossa relação é uma relação com o Pai, pelo Filho, no Espírito. Toda oração cristã é uma oração no Espírito. Ele é quem nos dá o espírito de filhos. Não é um espírito de servidão, mas de adoção e a qualidade de filhos dá à oração a “parrésia” (segurança, audácia e confiança). O monge é livre, com relação aos métodos de oração para o Pai. Von Balthasar diz: “O filho de Deus é livre, livre para falar ao Pai, segundo seu coração. Tem em seu coração, o Espírito de Deus e o Espírito ora nele”.

        Nada é tão livre como o amor e fora do amor não há liberdade. É o Espírito de amor que nos une a Cristo na relação nupcial (daí vem a importância do Cântico dos Cânticos na tradição monástica e da intenção “contemplativa” em nossa oração, já que o amor tem como exigência vital comprazer-se na verdade e em seus mistérios e beneficiar-se de sua ação transformadora (REGAMAEY. L’exigence de Dieu). A aspiração contemplativa e a direção escatológica são a própria essência da oração monástica.

        O estar aberto ao acontecimento do retorno do Senhor marcou profundamente a oração monástica com o caráter de “vigília”.

        O contemplativo não está sozinho. É membro de uma comunidade constituída pela escuta da Palavra. A contemplação é a repetição no homem particular de um ato cumprido diante da Igreja. Nunca é um ato solitário, mas uma ação que coloca o homem no centro da Igreja. A graça que faz o homem ouvinte da Palavra é sempre uma graça na e para a Comunidade. Quem é contemplativo capta e compreende, é incorporado na inteligência da Igreja (Constituição Dei Verbum 8). Quem adora, na presença do mistério incompreensível, entrará de maneira viva na atitude de adoração da Igreja e fecundará o interior dos novos homens de oração.

 

III. Valor eclesial

        Chegamos assim ao valor eclesial da oração monástica. A Igreja diz “que pela oração dos contemplativos a humanidade alcança sua plenitude e que por ela, pela participação da Eucaristia e a celebração do Ofício Divino se realiza a mais nobre tarefa da comunidade de orantes que é a Igreja” (Venite Seorsum III) e que “essa oração, é o ponto a que tende como cume de toda ação da Igreja” (Sacrossanctum Concilium 10). Na Igreja, tudo tem o valor de acordo com Cristo (Lumen Gentium 3). A oração contemplativa é a que mostra o tempo presente, o Cristo orando na montanha (Lumen Gentium 46) e também introduz no mistério do colóquio inefável que Cristo Senhor continuamente mantém com seu Pai celestial, em cujo seio se expressa o amor infinito (Venite Seorsum III).

     a. Carisma

        Toda a missão de Cristo se prolonga na Igreja através dos tempos e pessoas, pois o Espírito Santo a provê e governa com diversos dons hierárquicos e carismáticos (Lumen Gentium 4), a fim de que a obra que o Filho realizou, seja dividida entre os vários ministérios dentro da única missão (Lumen Gentium 4). A Igreja reconhece a vida contemplativa como carisma, ao aprovar os institutos dedicados à “oração assídua” e vê nela um verdadeiro serviço na Igreja. Este ministério ainda que misterioso e difícil de caracterizar, se desprenderá pela fecundidade do amor que impulsiona o monge orante em um triplo serviço que deriva de sua função sacerdotal, profética e real de batizado.

     b. Triplo serviço

        Função sacerdotal

        a. Serviço de união com Deus no Reino. A vida de oração é unificante para quem a vive e unindo-se a Deus se une aos outros e os une a Deus (Jo 17; Lumen Gentium 6).

        b. Serviço de intercessão pelo Reino. Porque o orante e aqueles por quem oram, entram no querer de Deus (Ad Gentes 40; Constituição Umbratilem vitae; Venite Seorsum III).

        Função profética

        c. Serviço de testemunho do Reino. Ao participar da presença e ação profética de Cristo, penetrando na Palavra, anuncia o que é Absoluto e realiza antecipadamente o que será o conhecimento escatológico dos eleitos (LECLERCQ, J. Le défie de la Vie Contemplative, p. 43).

        Função real

        d. O monge elevado, transfigurado pela graça, liberto pelo Espírito alcança o Reino. Os monges são (ou deveriam ser) o Reino que o Apocalipse narra e que suas vidas prefiguram: “estão diante do trono de Deus prestando culto dia e noite em seu santuário”.

 

A Abadía Santa María Madre de la Iglesía foi fundado em 30 de janeiro de 1965, a casa não possui site próprio. Mas algumas informações são encontradas na Congregação do Cone Sul (da qual ela faz parte): http://www.surco.org/comunidades/abadia-sta-maria-madre-iglesia

*Tradução e adaptação, feita por Luiz Alberto de Lara Junior, do texto publicado em espanhol na revista Cuadernos Monásticos de 1972, n. 20, p. 5-22.