O Monge é um Peregrino

Benito Rodríguez

          Caminhando para o claustro…

          São Bento foge de Roma… Moisés foge do Egito: depois de assassinar o capataz egípcio, tem que fugir do faraó… Jesus vai para o deserto quarenta dias, guiado pelo Espírito, para ser tentado pelo diabo… O claustro do mosteiro ressoa tudo isso para o monge: é um lugar onde se retira, fugindo do mundo, talvez escandalizado, como ocorreu ao jovem Bento… talvez fugindo de um crime, com uma culpa que atormenta seu coração… ou talvez simplesmente buscando a Deus, guiado pelo Espírito, para ser tentado pelo diabo… O que se sabe é este último fato, ou seja, que o monge no claustro do mosteiro será posto à prova, cedo ou tarde, mediante a tentação… e somente se persevera na paciência, progredindo na humildade e na fé, então verá grandes coisas. Há dois instrumentos para o bom combate que me parecem fundamentais neste “primeiro êxodo” para o claustro e para o transitar pelo claustro/deserto do mosteiro: “quebrar imediatamente contra Cristo os maus pensamentos que vem a seu coração e manifestá-los ao pai espiritual” (RB 4,50) e “reconciliar-se antes do pôr do sol com quem tiver alguma discórdia” (RB 4,73).

          A experiência que alguém tem do “claustro” é de um lugar onde alguém se retira do mundo, mas não como um fim em si mesmo ou um ponto de chegada e definitivo. Na verdade, se trata de adquirir no claustro algo como um novo ponto de apoio, mais sólido e firme, onde torna a se vincular com o mundo, mas a partir de outro lugar interior… Se antes era modificado pelo mundo, no claustro é o mundo que poderá ser alterado pelo monge… ainda que seja apenas de uma forma imperceptível…

          Caminhando para uma serena e alegre consciência da miserabilidade…

          No mosteiro beneditino, o caminho para o Amor é a humildade e a fé… e o primeiro grau da humildade é o “temor de Deus”. Talvez seja também o primeiro grau de nossa conversão no mosteiro: tomar consciência que deixamos o mundo como um ato de generosidade de nossa parte, mas nos apresentamos a bater à porta como mendigos… necessitados da misericórdia de Deus e da acolhida da comunidade. Passar da autoconsciência de heróis a de mendigos, não é nada fácil, ou dito de outra forma: pode ser extremamente doloroso perceber que não somos nós que deixamos o mundo, mas o mundo que se desentendeu conosco… De fato, também há os que chegam ao mosteiro com uma parte do caminho já percorrido, e estão mais adiantados nesta consciência mais verdadeira de si mesmos… Curiosamente o discernimento vocacional desconfia mais dos mendigos que dos que se apresentam como heróis ou campeões… e não deveria ser o contrário?

          Às vezes, o que se traz no coração ao ingressar no mosteiro não é o real temor de Deus, mas um sentimento de culpa que pode ser tóxico para a alma, porque não conduz à humildade, mas possibilita um complexo de inferioridade que pode ser um campo para cultivar o mau espírito da tristeza que sempre está observando o claustro do mosteiro. Com a ajuda de um bom pai espiritual e da oração, esse falso sentimento de culpa poderá ir purificando-se e colocando em evidência, de forma que vai dando lugar ao autêntico temor de Deus, que não tem nada a ver com o medo e que mostra o caminho da verdadeira humildade. Na verdade, alguns, mal aconselhados, podem se desviar do bom caminho e de “culpados” se transformarão em “vítimas”, produzindo grandes dificuldades e transtornos nas relações com seus irmãos de comunidade…

          Se os “culpados” pecam pelo excesso de responsabilidade, as “vítimas” se caracterizam pelo oposto, ou seja, por uma excessiva       “irresponsabilidade”, no sentido de que sempre haverá alguém a quem receber a culpa de suas supostas desgraças…

 A medida em que progride na humildade e na fé, o monge pode deixar sua condição de culpado ou de vítima, para se abrir à possibilidade de uma     serena e gozosa consciência da miserabilidade, de saber que é pecador mas não corrupto… de assumir sem medo a responsabilidade da própria vida…   porque cresce uma certeza de que é Cristo quem nos salva, e que com sua Páscoa já temos a esperança de sermos salvos… Então, assim como no   bom ladrão, podemos retornar para Jesus e dizer-lhe simplesmente: “lembra-te de mim, quando vier com teu reino” (Lc 23:42).

Na estabilidade da comunidade…

          Deixar o mundo falsamente pode conduzir a uma “solidão cômoda”… Então o recinto do mosteiro não se transforma em um “claustro”, mas numa clausura onde o mundo não pode entrar porque se percebe como uma ameaça a esta “solidão cômoda”… E termina canonizando hipocritamente o que é qualificado como “monástico” e anatematizando, como contraparte, o que se despreza com a expressão “não é monástico”…

Gosto de imaginar o mosteiro como uma espécie de hangar, onde os monges são aviões que se servem do mosteiro como uma plataforma, a partir da qual podem voar com liberdade pelo céu… e faz com que retornem para reabastecer, alimentar e descansar…

          Na relação com os irmãos, na oração comum, no refeitório, nos recreios, nos vários serviços do mosteiro, o monge sempre que escolhe progredir na humildade e na fé, vai deixando sua “solidão cômoda” e vai se abrindo para o encontro com os outros, com um próximo que sempre será diferente, por mais que possa ser percebido como idêntico em gostos, afinidades, pontos de vista. Deixar essa “solidão cômoda” para abrir-se à possibilidade do encontro é um verdadeiro êxodo do subjetivo para a realidade. Deus sai a meu encontro, busca sob a pele do próximo, que minha subjetividade perceberá como distinto ou idêntico, sendo que na realidade não é tão distinta nem tão idêntica… Converter-se ao encontro é aprender a não rejeitar o que se percebe como distinto e a não “se perder” com quem possui as mesmas afinidades… O encontro de comunhão sempre respeita a alteridade do outro…

          Caminhando para o Pai…

          “Sinto em meu interior a voz de uma água-viva que me fala e me diz ‘Vem ao Pai’”. (Santo Inácio de Antioquia).

          O abade no mosteiro “faz as vezes do Cristo”… e faz também o contraponto entre o monge e a comunidade, animando um e outro a abertura da acolhida recíproca. Para o monge, o caminho da obediência, sempre que progride no espírito de humildade e de fé, percorre um caminho filial, um caminho terapêutico e de restauração filial, onde o abade pode ter um papel importante, se é que se anima a ser como um “ícone” do Pai… e não em se transformar em ídolo, ou seja, um falso pastor como os que o profeta Ezequiel descreve e que Santo Agostinho comenta… O ícone é transparente, como uma porta para Deus… porém, o ídolo engana, coloca em uma armadilha… Em todo caso, somente a presença de um abade, além de sua interação direta com o monge, é como um sinal do caminho filial para o Pai, que para nós cristãos passa necessariamente por Cristo, que é a porta para o coração do Pai…

          Um dos principais obstáculos neste caminho filial é a ferida que podemos trazer de nosso lugar de origem, onde um pai ou uma mãe puderam se comportar de maneira autoritária, despreocupada ou ausente… A imagem do pai e, portanto, da autoridade, parecem bastante desprestigiadas em nossa sociedade atual… e em certas circunstâncias se pode reconhecer o valor e a influência positiva que o ministério de um abade ou abadessa podem ter na comunidade…

          Para quem recebeu o ministério abacial antes do tempo, pode se consolar assumindo que também se aprende a ser filho fazendo-se pai, o que pode restaurar e sanar a própria ferida filial contribuindo para restaurar e curar a ferida filial nos irmãos, seguindo essa lógica do evangelho de que dando é que se recebe…

O que é um bom abade? Pergunto isso especialmente pensando em quem está começando e é novo nesse ministério… O abade, em primeiro lugar, é filho e portanto é chamado a permanecer crescendo em seu próprio caminho filial… Ser abade não é uma identidade definitiva, porque a identidade fundamental de todo cristão é ser filho no Filho, que é Cristo… Mais que ser abade, talvez seja mais indicado dizer que deve exercer o serviço ou ministério de abade… e entender isso, penso que facilita as coisas, descomprime, aflora o nível de auto exigência que pode se tornar tóxica… Entendendo as coisas dessa maneira, então o abade pode se permitir razoavelmente não ter que saber tudo, que pode errar, ser vulnerável, ser imperfeito… porque também está no caminho… Gostaria de saber como os abades e abadessas vão dormir: retiram a mitra, a cruz peitoral, o anel?… Eu proponho irmãos e irmãs, que não durmam como abades e abadessas, mas como pessoas normais… como filhos e filhas amados de Deus… porque dormir é um ato de abandono, de confiança, como uma criança pequena nos braços de sua mãe ou pai… Dessa forma, o abade poderá dormir tranquilo, descansar… talvez inclusive se lembre do que sonhou…

          O abade “filho de Deus” poderá se animar a deixar brotar em seu coração um anseio filial e paternal ao mesmo tempo: que Deus possa ser Pai nele para seus irmãos… “deixar que Deus seja Pai em mim para os demais”… Desta forma, parece simples exercer o ofício de abade, ainda que isso não signifique ser fácil… Não se trata do abade fazer muitas e grandes coisas, não tem que se preocupar em deixar um legado para a posteridade ou livros de história, mas deve revelar Deus em si para os outros… As vezes o abade também tem qualidades humanas que o apontam como excelente administrador, um bom conferencista ou grande prestígio no mundo laico… mas essas qualidades não são as que Bento necessariamente destaca como primordiais… basta que conheça bem suas fraquezas e fortalezas para que razoavelmente possa compartilhar sua responsabilidade com os outros… Não é necessário ter uma mente brilhante, mas o sentido comum parece ser algo necessário… Gosto da definição do abade como “servidor da comunhão”… acredito que se trata de uma expressão muito boa…

          Pode se falar de uma missão da vida monástica?

          Penso que a missão da vida monástica é ajudar o monge em seu desejo de buscar a Deus e também despertar e acrescentar o desejo nele. A medida que o monge “progride na vida monástica e na fé”, nesse contexto favorável e privilegiado que supostamente deve brindar ao claustro, no marco de uma comunidade, sob a guia de uma Regra e um abade… Se esse progresso espiritual realmente se realiza no coração do monge, então acenderá uma luz, que é apenas a Luz de Cristo, que desde nosso batismo foi acesa em nossos corações… A missão de um mosteiro é avivar essa luz nos corações dos monges e na comunidade…

Na cova de Subiaco sempre brilha uma luz acesa, com a inscrição que diz “São Bento, patrono da Europa”… Este sinal pode confirmar-nos quanto o ideal beneditino é fecundo, porque não se limita a buscar a salvação de um monge ou comunidade… mas através deles, conduzir a salvação de Cristo ao mundo… refletindo a compaixão de Cristo diante do sofrimento… fazendo o rosto de Cristo brilhar no hóspede, no peregrino, no pobre que vem ao mosteiro… refletindo a paternidade de Deus que nos é manifestada por Cristo… enfim, sendo testemunha da esperança diante do mundo, esperança de que Cristo nos abriu as portas do Paraíso…

 

 

Abade da Abadia de la Santíssima Trinidad de Las Condes no Chile.

Tradução e adaptação, feita por Luiz Alberto de Lara Junior, do texto publicado em espanhol na revista Cuadernos Monásticos de 2018, n. 204, p. 73-78. Reflexão originalmente feita no Jubileu de Ouro da CIMBRA em novembro de 2017.