Mosteiro Nossa Senhora da Glória
Esteja em cada um o espírito de Maria para exultar em Deus!

QUANDO O OUTRO É DEUS

 QUANDO O OUTRO É DEUS

D. Bernard Buchould, osb ouv.

É evidente que, se a vida monástica, segundo a bela definição de Bento XVI no seu recente discurso no Colégio dos Benardinis, é uma arte de buscar a Deus e fazê-lo de modo a sermos encontrados por ele _ máxima programática para toda a vida cristã, segundo o Papa _ então  o primeiro Hóspede que eu sou chamado a acolher, é o próprio Deus, o Hóspede interior que, como a Abraão no carvalho de Mambré, se apresenta sem aviso prévio e sem nem mesmo revelar a sua identidade, ou ainda, este estrangeiro desconhecido que caminha com os dois discípulos que se separaram (do grupo) rumo a Emaús.

“Acolher o outro, quando o outro sou eu experimenta na própria carne a presença atuante de um Deus que está em nós, agindo por nós, em prol do encargo do serviço do Reino de Deus. Acolher o outro quando o outro sou eu,  é ter a consciência ou melhor desejar ser de fato parecido com o autor da própria vida, Deus.”[1]

Acolher o outro, quando o outro é o meu irmão mais próximo, baseia-se antes de tudo sobre um mútuo acolhimento entre  os irmãos que compõem a comunidade, os quais não se escolheram, mas reconhecem terem sido escolhidos e reunidos por um mesmo chamado, pelo desejo mesmo de Deus, no duplo sentido da expressão: o desejo que eu tenho de buscar a Deus e de encontrá-lo, e o desejo que Deus tem da minha felicidade, oferecendo-me este percurso de vida. “Isto requer segundo o espírito da Regra o bom zelo, a tolerância das próprias fraquezas e dos irmãos tanto do corpo como do caráter (RB72,5).”[2] A expressão, reforçada pelo superlativo, exprime bem a vontade tenaz que deve ser usada nesta “suportação”, no combate requerido pela caridade fraterna... Este combate, amiúde, se dá nas pequenas coisas, quando devo aceitar uma diferença concreta no temperamento, num traço do caráter...  Acolher o outro, o hóspede de passagem atrai ainda mais a atenção de São Bento sobre esta presença de Cristo no hóspede. Bento  é consciente, “desta  presença Cristocêntrica na pessoa do outro, o hospede”[3] , por isso envolve a hospitalidade com um certo número de gestos quase sacramentais_ lavar as mãos e os pés dos hóspedes_ da parte do Abade  e de toda a comunidade. São Bento chega até a pedir aos monges um ato de adoração, no sentido bíblico: “Nesta mesma saudação mostre-se toda a humildade. Em todos os hóspedes que chegam e que saem, adore-se o Cristo que é recebido na pessoa deles. O outro traz o Cristo para nós, mesmo sem estar consciente disso. Portanto, eu sou como o meu hóspede, um buscador de Deus que é totalmente outro e inteiramente próximo. Também o hóspede é habitado por esta Presença misteriosa, portador da mesma Face divina; é nesta Presença que nós podemos nos encontrar verdadeiramente  e acolhermo-nos uns aos outros. “Acolher o outro, acolho em mim o próprio Cristo”.[4]

 



[1] Cury Kadjars

 

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